
Visto como um hobby minucioso, o colecionismo é uma prática que envolve o consumo, a seleção e organização de itens por meio de categorias. Até certo tempo, o ato de ‘colecionar algo’ estava comumente ligado a obras de arte, a joias e a demais itens luxuosos. No entanto, o mercado de colecionáveis cresceu e se ressignificou tão rapidamente que hoje quase qualquer objeto pode ser transformado em uma coleção.
Segundo dados levantados pela empresa Circana, especializada em informação de mercado, o colecionismo registrou alta de 51% entre 2021 e 2024 no Brasil, resultado acima da média global de 9%. Com a influência do digital no segmento, novos nichos também ganharam espaço, como itens da cultura geek, pop e nostálgica – movimento que atraiu gerações mais jovens, como os Millennials e a Z, para a prática.
O fenômeno kidult é a nova tendência no mercado de colecionáveis
Se engana quem pensa que brinquedos são apenas para crianças, ainda mais no colecionismo, e o fenômeno kidult prova isso. Se referindo a jovens e adultos que se interessam, consomem e colecionam produtos destinados ao público infantil, sobretudo brinquedos, o kidult desafia os preconceitos existentes no significado do que é “ser adulto”.
Em pesquisa apresentada pela Abrin – maior feira de brinquedos da América Latina – em 2024, 76% dos adultos brasileiros, entre 18 e 65 anos, se identificam como potenciais consumidores desse tipo de produto. Ainda, quando voltamos o olhar para os itens de nostalgia, as gerações Y (Millennials) e Z representam juntas 93% dos clientes, sendo respectivamente 50% e 43%, de acordo com estudo realizado neste ano pela Mission Brasil.
“O crescimento dos colecionáveis entre jovens e adultos está dentro do que chamamos na economia de fenômeno complexo. Essa tendência pode ser observada a partir de quatro pontos: questões emocionais, pertencimento social, sensação de recompensa e o marketing”.
Leonardo Aguiar, economista.
No aspecto econômico, a crescente do colecionismo e o boom dos ‘brinquedos para adultos’ pode ser explicado nos processos de decisões que levam o público ao consumo desses itens. “O crescimento dos colecionáveis entre jovens e adultos está dentro do que chamamos na economia de fenômeno complexo. Essa tendência pode ser observada a partir de quatro pontos: questões emocionais, pertencimento social, sensação de recompensa e o marketing”, explica o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Leonardo Aguiar.
Dentre os casos de sucesso envolvendo a onda kidult se encontram os Funkos POPs e as populares cartinhas de Pokémon. Em 2021, a empresa Funko – fabricante do Funko Pop – atingiu um faturamento notável: mais de US$ 1 bilhão em vendas anuais, o que representa cerca de 5,4 bilhões de reais de acordo com a taxa média de câmbio entre dólar e real à época.
No universo dos card games, em português “jogos de cartas” – no qual se encontram as cartinhas de Pokémon, a pesquisa Trading Card Game Market [2023-2030], divulgada em 2023 pela empresa Zion Market Research, mostra que o mercado global dos jogos de cartas movimentou R$ 31 bilhões em 2022. Na América do Sul, o Brasil é líder no consumo, seguido por Argentina e Colômbia.
Kelly Cano (20) é estudante de jornalismo e coleciona cartas de Pokémon desde os nove anos. “Primeiramente era um hobby de criança, mas quando cresci, quis aprender mais sobre as cartas. Existem dois tipos de colecionadores: os que colecionam para jogar; e quem coleciona apenas por ter achado a arte da carta bonita, como é o meu caso”, conta a estudante. Kelly também menciona o alto custo da coleção, afirmando que “as cartas de Pokémon são um hobby caro. Atualmente, um pacote com seis cartas custa em média R$13, então se você compra dez pacotes já gasta R$130.”
Apesar do aspecto sentimental envolvido, o ato de colecionar também requer cautela financeira, para que o hobby não se transforme em compulsão. “Esses itens [colecionáveis] podem despertar em algumas pessoas o hábito de gastar excessivamente. Outro fator é a sensação de urgência e escassez que produtos colecionáveis podem oferecer, gerando a compra por impulso”, destaca Aguiar.
A cultura colecionista na capital paranaense
Em Curitiba, a prática acontece através das constantes feiras que a cidade tem recebido nos últimos anos. Com a ideia de atrair o público, os organizadores de eventos multicolecionistas apostam em diversos nichos, além de locais que garantem boa mobilidade urbana. “Quando espalhamos o evento em vários lugares da cidade temos um alcance maior, incluindo de moradores da Região Metropolitana. De forma geral, o perfil predominante que observamos é de homens, na faixa etária de 20 a 45 anos”, conta um dos organizadores da CWB Expo – Evento de Multicolecionismo em Curitiba e funcionário público, Alceu Cardoso.
Além de organizador, Alceu também é colecionador de miniatura de carros e relata que os nichos mais procurados nos eventos são os carrinhos, seguidos das action figures (bonecos e figuras inspirados em personagens de séries e filmes, como os Funko POPs), e das cartinhas de Pokémon. Ainda, o organizador afirma que os eventos de multicolecionismo são impulsionadores da economia local, visto que “para muitos expositores o colecionismo é a principal forma de sustento, então esses espaços servem para que ele possa expor seus itens e negociar.”
A CWB Expo acontece mensalmente, aos sábados e domingos, em Curitiba e Joinville, em Santa Catarina. Na capital paranaense, o encontro marca presença em três shoppings da cidade: Estação, Ventura e Shopping Curitiba – sendo esse último o mais recente a integrar o roteiro da feira. A próxima exposição acontece nos dias 29 e 30 de novembro, no Shopping Estação. Mais informações estão disponíveis no Instagram do evento.
Para além do hobby, colecionar também é um passatempo terapêutico
Além do afeto e nostalgia envolvidos no colecionismo, a prática também é vista por muitos como uma pausa na rotina intensa do dia a dia. Luciano Araujo (45) é professor de história na rede estadual e coleciona miniaturas de carros. No ápice da coleção, Luciano tinha cerca de mil carrinhos em miniaturas e explica que frequentemente participa das feiras que acontecem na cidade, onde “costuma observar o que está chegando de novo, comprando em média 2 ou 3 miniaturas por mês.”
“Quando estou cuidando da minha coleção, é como se acontecesse uma ‘virada de chave’ depois de um dia longo de trabalho”.
Luciano Araujo, colecionador.
Colecionador há 20 anos, o professor enfatiza como o hobby tem sido um momento de lazer, principalmente depois do trabalho. “Quando estou cuidando da minha coleção, é como se acontecesse uma ‘virada de chave’ depois de um dia longo de trabalho. O colecionismo vai muito além de colecionar, envolve cuidado com o objeto e o contato com outros colecionadores, o que é muito bacana”, conta Luciano.






