Por Thais Castro e Naomi Mateus
Colibri marcou presença no Festival de Curitiba nos dias 2 e 3 de abril, na Casa Hoffman. Bater asas e voar parece algo simples, mas quando se carregam tragédias, memórias e narrativas que remetem ao apagamento de seu povo, torna-se mais difícil. Maria Emilia Gomes traz um espetáculo significativo que gera múltiplas interpretações, mas que saem de um mesmo lugar, um corpo preto que carrega memórias.
A escolha do nome não é por acaso. Como explica a artista, Colibri é um pássaro e em suas memórias mais bonitas de infância em Mariana, Minas Gerais, observava os Colibris na Bica d’água. Para ela, falar das colonialidades que nos rodeiam também é poder fazer o caminho de volta, para além desse histórico da colonização, para além desse passado escravocrata da dor.
Esse movimento evoca o conceito de Sankofa: o símbolo africano do pássaro que olha para trás para recuperar o que é vital. Lembra também que nas nossas fugas todas, nos nossos quilombos todos, dança é tecnologia ancestral, fundindo o breaking, samba e o ballet em sequência.
Como o pássaro que dá nome à obra, a performance tem uma facilidade em imersão que impressiona, as luzes pouco calorentas e a fumaça que fazem com que a dançarina entre em transe e consiga demonstrar o presente e o passado. A obra é, essencialmente, sobre isso: o desejo de voar e o desejo de lembrar e não esquecer, mas lembrar também que é desejando o que a gente segue adiante.
Um detalhe cenográfico potente são os tênis pendurados na luz que ilumina a Casa Hoffmann, que se remetem aos calçados pendurados em fios elétricos comuns nas ruas e vielas da periferia, que fazem parte do imaginário coletivo da maioria dos brasileiros. É uma performance que transforma o espaço em um território de resistência, onde o voo do colibri se torna um manifesto de liberdade e resgate ancestral.
Confira a entrevista com Maria Emilia Gomes, criadora e intérprete de Colibri:



