“Trapo”, de Cristóvão Tezza, volta aos palcos de Curitiba

Depois de mais de trinta anos da única performance conhecida, o romance curitibano que remonta a vida de um jovem poeta estreia novamente

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Na última terça-feira (21), a Cia. Artística Made Santos estreou o espetáculo “Trapo”, adaptação do livro homônimo de Cristóvão Tezza. A apresentação, que aconteceu no Auditório do Instituto Federal do Paraná (IFPR) – Rebouças, teve duração de três horas e o roteiro foi criado a partir do romance pelo próprio autor.

Adaptado por Tezza na década de 1990, o texto só havia sido encenado uma vez, em 1992. Madelaine Santos, diretora da Cia. Artística, explica a motivação para trazer a obra de volta aos palcos:

“Essa história traz vários temas que estão sempre em pauta: juventude, drogadição, suicídio, questões emocionais e, principalmente, saúde mental. Tudo gira em torno da saúde mental de um menino que enlouqueceu porque não tinha o apoio da família, tinha só um amigo com quem ele brigou e uma namorada e toda aquela história trágica. É uma história longa, mas linda”.

“Trapo” traz a história póstuma de poeta marginal. Fotos: Flávia Lara

Fabiano Martini, intérprete do personagem “Professor Manuel” e assistente de direção considera que o teatro está no cerne da cultura de Curitiba: “um dos principais motivos para a produção e montagem da peça ‘Trapo’ é o fato dela ser uma obra curitibana e que se passa cartograficamente na Curitiba do final dos anos 1970. Assim, resgatar essa peça era essencial, dada a sua imensa importância para a história do teatro curitibano. Além de trazer uma obra curitibana para o público da cidade, o objetivo também é levá-la para outros lugares do país”. 

Em 2024, a Cia Artística pretende realizar uma temporada de apresentações de “Trapo”. “Já temos previsões de apresentações para o mês de fevereiro e o plano é expandir, inclusive buscar prêmios em festivais de teatro, tanto no Paraná quanto em outros estados do país”, afirma Made Santos. 

Para Fabiano, o sentimento de estrear a peça é de plena satisfação. “Agora, enfim, foi dado o start que a peça precisava para se perpetuar nos palcos de Curitiba, do Paraná e do Brasil. Esse espetáculo tem um significado muito importante para mim, pois representa o meu retorno aos palcos após anos sem participar de uma montagem teatral”, declara. Além disso, para ambos, as expectativas são as melhores possíveis, começando essa temporada com animação e esperança de muitas conquistas.

A ORGANIZAÇÃO:

A peça foi organizada pela Cia Artística Made Santos. A companhia surgiu em 2015, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e com o Palácio dos Estudantes – Casarão da UPE, como projeto pessoal de Madelaine Santos, atriz e diretora de teatro desde 1988.  

O projeto de montagem de “Trapo” se iniciou em 2019, mas passou por desafios durante a pandemia. Os ensaios continuaram acontecendo de forma online, com leitura de texto à distância. “Para mim, foi um desafio, como diretora, produzir uma peça de longa duração com muitos atores. Manter o público atento por quase três horas só é possível com um elenco muito engajado em cima do palco. Esse processo de desenvolvimento acabou, por algumas questões, levando mais tempo do que o esperado. Mas o resultado está aí e valeu muito a pena”, explica Made.

A OBRA:

Catarinense de nascença, mas curitibano de criação, Cristovão Tezza é autor de mais de vinte livros publicados no Brasil e no exterior. “Trapo”, romance de 1988, foi responsável por tornar o escritor conhecido no cenário nacional. A narrativa acompanha a história turbulenta de Paulo, conhecido como Trapo, um jovem de família abastada que optou por se tornar poeta marginal. Viciado em drogas e perdidamente apaixonado, o poeta se suicida, deixando manuscritos para trás.

O conflito se dá quando, após o suicídio do jovem, a dona da pensão em que morava encontra os manuscritos e os entrega a um professor de literatura aposentado, Manuel, para que organize o material. Manuel é personagem-narrador que conduz o romance enquanto gradualmente se envolve com as pessoas ligadas a Trapo.

Fotos: Flávia Lara

CURITIBA E O TEATRO:

Conhecida por ser a capital mais fria do país, Curitiba também carrega alguns outros títulos: cidade ecológica, cidade sorriso e cidade modelo em planejamento urbano. Para além desses rótulos, Curitiba vem se projetando no cenário cultural nacional e internacionalmente há muitos anos. 

Há mais de trinta anos, durante o mês de março, a cidade se transforma no maior palco do Brasil, abrigando o Festival de Teatro de Curitiba. O evento reúne cerca de 400 espetáculos, atraindo a cada edição um público de mais de 200 mil pessoas. O Festival é o maior evento de teatro da América Latina e é vitrine do teatro brasileiro contemporâneo, responsável por fortalecer a cena artística em Curitiba e projetá-la para o mundo. 

Além disso, neste ano, a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) completou cinquenta anos. A FCC é o órgão de política cultural da capital paranaense e fomenta há meio século a produção cultural da cidade, dando apoio direto a artistas e gerenciando espaços e complexos culturais da cidade, trabalhando para afirmar a identidade cultural curitibana. 

Fotos: Flávia Lara.