Coworkings, eventos de networking e programas de empreendedorismo passaram a integrar a rotina de startups e microempreendedores de Curitiba nos últimos anos. Por trás dessas iniciativas está o Vale do Pinhão, ecossistema de inovação criado pela Prefeitura em 2017 para aproximar empresas, investidores, universidades e poder público

A trajetória da empreendedora Gehane Chamun Saade confunde-se com a própria história da família, carregando uma herança comercial que ela mesma define como algo presente desde o berço. De origem libanesa, ela cresceu dentro dos negócios dos pais e, após se formar em Direito, decidiu resgatar as raízes ao produzir doces árabes artesanais. O sucesso das vendas em feiras e os pedidos dos clientes por um espaço físico a levaram a planejar o Sukar Coffe, uma cafeteria em Curitiba com uma proposta gastronômica mediterrânea. Para tirar o projeto do papel, a empresária relatou que buscou capacitação no Sebrae por dois anos, durante os quais desenvolveu um plano de negócios com o objetivo de dar uma base sólida e estruturada ao novo empreendimento.


Foi nesse caminho de formação que Gehane descobriu o Prêmio Empreendedora Curitibana, por indicação de uma ex-professora que trabalhava na Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação. Para concorrer, ela explica que precisou passar por cadastros e seletivas até chegar à etapa da banca de apresentação. O esforço culminou na conquista do prêmio de voto popular no final do ano passado, o que impulsionou o faturamento do Sukar Coffee e atraiu a atenção da imprensa. Ao avaliar o impacto da premiação, Gehane celebrou os desdobramentos em sua trajetória:
O prêmio abriu portas inimagináveis e as conexões que eu tive com profissionais é que me ajudaram a crescer mais ainda.
Gehane Saade
O que é inovação?
De acordo com a Chefe da Unidade Promotora de Ambientes de Inovação da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da Universidade Federal do Paraná, Amanda Massaneira de Souza Schuntzemberger, a definição de inovação vai muito além do conceito de “algo diferente” ou de uma simples invenção. Conforme explica a professora, “a inovação tem que estar no mercado. Alguém tem que estar se apropriando dessa inovação e, fatalmente, essa inovação precisa gerar lucro, ou gerar redução de custo, ter algum tipo de impacto”. A grande distinção entre o ato de criar e o de inovar reside justamente nessa viabilidade comercial e no retorno prático. Para ela, se uma nova fórmula ou processo ainda não chegou ao público consumidor, isso não é uma inovação. “Ele pode ser uma invenção com potencial de inovação, mas enquanto não estiver no mercado, não é uma inovação.”
Para que esse potencial se transforme em realidade, é necessária a atuação de um ecossistema de inovação, ou seja, um conjunto de instituições que se conectam em prol de conseguir produzir, de fato, inovações. Esse sistema funciona como um mecanismo articulado em que o poder público incentiva as empresas, os cidadãos e as universidades a produzirem pesquisas científicas relevantes e as próprias empresas geram ou absorvem as novidades. O ecossistema também abre espaço para as startups, que são companhias em operação inicial ou recente que trabalham com base tecnológica e têm alto potencial de produzir inovações. A professora ainda destaca o papel dos investidores, lembrando que “são eles que muitas vezes financiam o desenvolvimento de pesquisas que vão se tornar efetivamente inovação quando ganharem o mercado.”
Mesmo com o crescimento do setor e o reconhecimento da cidade na área de inovação, o desafio ainda é ampliar o alcance dessas iniciativas e transformar ideias em empresas consolidadas. Segundo o coordenador de inovação da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, Dálcio Reis, o Vale do Pinhão surgiu para organizar ações que antes funcionavam de maneira isolada. “O Vale do Pinhão nasceu com a ideia de ser a formalização do ecossistema de inovação de Curitiba”, afirma.
Mesmo com o crescimento do setor e o reconhecimento da cidade na área de inovação, o desafio ainda é ampliar o alcance dessas iniciativas e transformar ideias em empresas consolidadas. Segundo o coordenador de inovação da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, Dálcio Reis, o Vale do Pinhão surgiu para organizar ações que antes funcionavam de maneira isolada. “O Vale do Pinhão nasceu com a ideia de ser a formalização do ecossistema de inovação de Curitiba”, afirma.
O que é o Vale do Pinhão?
Embora muitas pessoas associem o nome ao espaço localizado no bairro Rebouças, a antiga fábrica de farinha da Família Fontana, o Pinhão Hub está instalado nesse prédio histórico que, mais recentemente, também funcionou como sede da Fundação Cultural de Curitiba.
Antes de se tornar o centro físico de inovação e tecnologia do ecossistema Vale do Pinhão, a edificação passou por essas transformações, mas o Vale do Pinhão em si não se restringe ao prédio ou a um programa específico. O termo representa todo o ecossistema de inovação da cidade. Inspirado no Vale do Silício, nos Estados Unidos, o projeto reúne universidades, startups, entidades empresariais e órgãos públicos ligados à tecnologia e ao empreendedorismo.
Antes da criação do Vale do Pinhão, os projetos aconteciam de forma menos integrada. De acordo com Reis, “cada um desenvolvia suas iniciativas, mas não havia uma articulação disso tudo.”
Atualmente, Curitiba figura entre as três principais cidades do país para a implantação e o desenvolvimento de startups. No estudo Global Startup Ecosystem Index Report, do instituto StartupBlink, a capital paranaense aparece atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Porém, Reis avalia que o potencial da cidade ainda não foi plenamente explorado.
É uma posição bastante significativa. Mas ainda é pouco perto do potencial que a cidade tem para oferecer.
Dálcio Reis
Hoje, Curitiba abriga cerca de 660 startups, de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Paraná (Sebrae-PR).
A articulação da Agência Curitiba
Enquanto o Vale do Pinhão representa o ecossistema como um todo, a Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação funciona como a principal articuladora das ações ligadas à inovação. A agência é uma empresa pública municipal de direito privado, o que significa que ela pode gerar lucro. Embora quase todo o investimento para mantê-la venha da prefeitura, ela também conta com o apoio financeiro de instituições como a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Paraná (Fecomércio).
A agência coordena programas, eventos e projetos voltados ao universo empreendedor e à tecnologia. “A Agência Curitiba ganhou a incumbência de organizar esse ecossistema e ser o principal interlocutor”, explica Reis. A presença do poder público é apontada pelo coordenador como um dos diferenciais de Curitiba em relação a outros polos de inovação do país. “Curitiba tem o privilégio de ter no seu ecossistema ativamente o poder público”, diz. Apesar disso, ele reconhece que o incentivo institucional não garante o sucesso dessas empresas. “A Agência não tem resposta para todas as startups. A gente certamente vai tentar ajudar e colocar perto de pessoas que também podem trazer soluções”, afirma.
Pinhão Hub concentra coworkings e eventos




Já o Pinhão Hub é o espaço físico da agência, localizado na Rua Engenheiros Rebouças. Sob a coordenação de Maria Juliana Roberto, que atua na área administrativa e financeira da instituição, o local concentra boa parte das iniciativas da Agência Curitiba. O ambiente reúne coworkings, empresas e programas voltados ao empreendedorismo, além de sediar eventos e capacitações focados em inovação.
Entre as iniciativas está o programa Worktiba, coworking público gratuito criado para atender empreendedores em estágio inicial. São, ao todo, 52 startups que utilizam o local. As empresas locadas ali não pagam nenhum valor e podem se manter naquele espaço por até dois anos. Dálcio Reis afirma que o apoio público ajuda a reduzir algumas das principais dificuldades enfrentadas por quem tenta iniciar um negócio. Mesmo assim, ele admite que boa parte das startups não consegue se consolidar. “Muitas vezes faltam recursos, estrutura e tempo. A imensa maioria das empresas que nascem não vai para frente com suas ideias. E é algo normal”, finaliza.
Resumo

Barreiras invisíveis e os gargalos na comunicação
Apesar do impacto positivo que a premiação trouxe para o Sukar Coffee, Gehane só passou a conhecer o trabalho da Agência Curitiba por conexões da própria rede de contatos. Para a empresária, a forma como descobriu a instituição evidencia uma lacuna na comunicação e na divulgação por parte da Prefeitura de Curitiba. Ela ressaltou que as iniciativas, cursos e programas de apoio ao microempreendedor promovidos pela agência deveriam ser mais amplamente integrados à publicidade oficial do município, e não restritos aos canais da própria autarquia. Segundo a empreendedora, essa falha institucional na disseminação da informação cria uma barreira, impedindo que uma parcela significativa de pequenos comerciantes tenha acesso a ferramentas de capacitação e fomento econômico local.
Essa barreira na disseminação de informações institucionais não é um caso isolado, mas parte de um problema estrutural que afeta o ecossistema de inovação de Curitiba. Segundo a professora da UFPR e especialista em sociologia política, Maura Regina Franco, as dificuldades de comunicação se somam à falta de instrução básica e ao uso excessivo de vocabulário técnico do setor. A docente explica que os órgãos de fomento adotam jargões distantes da realidade da maior parte da população, de modo que termos como hubs, inovação e tecnologia costumam ser incompreensíveis para cidadãos que tentam abrir um negócio.
Para enfrentar essa lacuna, a pesquisadora defende que as políticas de fomento devem priorizar uma linguagem simples: “Deveria ter uma metodologia ou um manual de procedimentos que tivesse uma linguagem mais acessível para esse público, de forma geral”, explica
Além da barreira linguística e de divulgação, Franco ressalta que o mercado propaga uma visão romantizada do empreendedorismo, omitindo os desafios do cotidiano operacional. Outro problema recorrente é a falsa percepção institucional de que o suporte dos órgãos públicos aos pequenos empresários será permanente e irrestrito.
A professora defende a urgência de capacitações técnicas e realistas antes do início das atividades.
Realmente, se faz necessária uma metodologia que apresente (aos empreendedores) todos esses procedimentos, falando o que eles vão ter que praticar ao abrir essas empresas.
Maura Regina Franco
De acordo com ela, a eficácia dos programas de incentivo depende de uma descentralização das campanhas de divulgação. A proposta é levar as orientações para além dos canais das autarquias, ocupando espaços públicos e de grande circulação popular, como ônibus coletivos, terminais de transporte, Ruas da Cidadania e postos da Fundação de Ação Social (FAS). O objetivo é garantir que o acesso ao conhecimento sobre a criação e a manutenção de empresas seja amplo e sistêmico, alcançando efetivamente quem mais depende dessas ferramentas.
Ficha Técnica
Repórteres: Fernanda Gomes de Siqueira e Matheus Neme
Edição: Francielle Lacerda
Infográfico: Matheus Neme
Fotos: Fernanda Gomes de Siqueira e Naomi Mateus
Supervisão: Cândida de Oliveira


