Primeiro conjunto habitacional de Curitiba, vila foi criada em 1966 para realocar famílias removidas de áreas periféricas de curitiba e do interior do Paraná
Em 2026, a Vila Nossa Senhora da Luz, primeiro conjunto habitacional de Curitiba, localizado na Cidade Industrial, celebra 60 anos de história. Criado pela prefeitura com o objetivo de combater a favelização na capital paranaense, o projeto promoveu a realocação de famílias em situação de vulnerabilidade social que viviam em ocupações irregulares, tanto na periferia de Curitiba quanto em outras regiões do estado. Hoje, a vila abriga mais de 20 mil habitantes, mas sua trajetória foi marcada por desafios desde o início.
Na transição entre as décadas de 1950 e 1960, Curitiba enfrentava um intenso crescimento populacional, impulsionado também pelo êxodo rural. Em meio ao aumento da desigualdade social, milhares de famílias sem condições financeiras passaram a ocupar áreas periféricas da cidade em moradias precárias, dando origem às primeiras favelas da capital. Como resposta ao problema habitacional, a recém-criada Companhia de Habitação Popular de Curitiba (COHAB) idealizou a construção de aproximadamente duas mil casas em um terreno isolado de 800 mil metros quadrados, na divisa com o município de Araucária.
O número não foi escolhido por acaso: levantamentos da época apontavam que essa era exatamente a quantidade de famílias vivendo em situação irregular em Curitiba. Entretanto, um dos principais financiadores do empreendimento, o extinto Banco Nacional da Habitação (BNH), exigia que o responsável financeiro da família tivesse vínculo formal de trabalho. Como essa não era a realidade da maioria dos moradores das ocupações, grande parte das casas acabou destinada a outras famílias.
A Vila Nossa Senhora da Luz foi planejada com 12 praças interligadas por ruas estreitas, projetadas para priorizar a circulação de pedestres e estimular a convivência comunitária. O arquiteto responsável pelo projeto urbanístico foi o tcheco Alfred Willer, que se inspirou em modelos populares na Polônia da época para definir elementos das residências, como sótãos e escadarias de madeira. As casas também eram entregues mobiliadas, com camas, sofás, eletrodomésticos e instalações sanitárias. Para muitas famílias, ter um banheiro dentro de casa já era uma novidade.
Um dos primeiros moradores da vila, Adão Lopes chegou ao bairro aos oito anos de idade, junto da família vinda de Borrazópolis, no interior do Paraná.
Era moradia com dignidade, mas era uma moradia com dignidade que deveria ter estrutura, e à época não tinha. A gente viu implantar o esgoto sanitário e o esgoto fluvial. As ruas de Saibro, quando chovia fazia barro, se tinha um tempo, bom era uma poeira. Sem estrutura, sem postinho de saúde. Qualquer acidente que acontecesse aqui, uma coisa que demandasse médico, atendimento simples como tomar uma injeção ou pegar um remédio, você tinha que ir lá no pronto-socorro do Cajuru
Adão Lopes
Adão também relembra o estigma criado em torno da vila, alimentado principalmente pelas manchetes e pela cobertura midiática, que frequentemente associavam o bairro à criminalidade e aos problemas de segurança pública. Nos primeiros anos, ele e muitos outros moradores chegaram a esconder o endereço onde viviam para evitar julgamentos e possíveis discriminações em processos seletivos de emprego. Além da segurança insuficiente, concentrada em uma pequena delegacia, a distância em relação ao restante da cidade também reforçava o preconceito contra a Vila Nossa Senhora da Luz. A localização isolada alimentava a percepção de que o conjunto habitacional era ocupado por criminosos, como se os moradores estivessem afastados do centro urbano por apresentarem algum tipo de ameaça social.
Mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), o professor Fabiano Felix explica que a escolha de transferir famílias removidas de áreas de favela para regiões periféricas, em geral, não ocorre por acaso.
A realocação para um lugar diferente do lugar que você já está em si já tem muitos problemas, porque você rompe laços, você apaga memórias, você de certa forma reescreve histórias de cima para baixo. Do ponto de vista do poder público, eles não podem falar que estão tentando beneficiar empreiteiras e incorporadoras imobiliárias. Nenhum político pode declarar abertamente que o seu objetivo é reproduzir e remunerar capital de investimento. O fato desses moradores da Vila Nossa Senhora da Luz terem ido para região distante faz com que todos os espaços entre a região distante e a região central sejam automaticamente valorizados
Fabiano Felix
Aos poucos, com a chegada progressiva de novos habitantes, a Vila Nossa Senhora da Luz começou a mudar. A partir dos anos 70, o trem deixou de ser o principal meio de transporte e deu lugar ao ônibus, uma linha única conectando a vila com a Praça Rui Barbosa, no Centro. A água, antes retirada dos poços com baldes, foi substituída pelo abastecimento regular. A energia elétrica chegou às casas e, mais tarde, vieram também as unidades básicas de saúde. Mais tarde, surgiram entre as praças as primeiras ruas comerciais com padarias, açougues e mercearias administradas pelos próprios moradores. Apesar da convivência diária, a integração entre os habitantes da vila aconteceu de forma lenta. Como muitas famílias não se conheciam, era comum que os moradores se limitassem à convivência na própria praça onde moravam. Para Adão, a construção da igreja matriz e os investimentos em esporte e cultura ajudaram a aproximar a comunidade.
“O que concretizou essa integração na vila era um cinema. O cinema integrou a vila. No Cine Nossa Senhora da Luz. Hoje todo mundo se dá bem, o pessoal vem tomar whisky na beira da cancha, faz churrasco de carne boa. O pessoal arma a tendinha, trazem prato para comer ali. Então é uma integração, o pessoal se dá bem, a gente tem orgulho disso aqui, da gente estar vivo, de ter sobrevivido sem se corromper”, completou.
Sessenta anos depois da inauguração, a Vila Nossa Senhora da Luz já não é a mesma encontrada pelas famílias que chegaram ao local em busca de uma vida mais digna. As casas foram modificadas, ganharam novas características e o território se expandiu. Mesmo ainda enfrentando estigmas e problemas de segurança pública, antigos e novos moradores passaram, aos poucos, a se sentir parte da cidade de Curitiba.
Para saber mais, confira a reportagem completa de Cecília Comin e João Gabriel Cordeiro abaixo.



