Iniciativa foi criada pelos próprios estudantes após caso de racismo dentro do ambiente escolar

A mobilização estudantil sempre esteve presente na história do Colégio Estadual do Paraná. Foto: Davi Bini Mathias e Daniel Oldoni.

Em 2026, o Colégio Estadual do Paraná (CEP) completa 180 anos de história. Durante esse tempo, diversas gerações passaram pelo Colégio e muitas ações estudantis já foram realizadas. Dentre os movimentos, a vivência negra conquistou espaço por meio do Coletivo Preto, iniciativa que visa trazer representatividade e igualdade racial no maior colégio público do estado.

O Coletivo nasceu após um episódio de racismo com a estudante Hilary Banks, à época aluna do terceiro ano. O caso ganhou repercussão entre o corpo estudantil e no final de 2022 surge o Coletivo Preto – movimento que até hoje fortalece a união entre os jovens negros do CEP.

Mais do que luta, o Coletivo também tem por objetivo dar amplo conhecimento sobre a pauta racial a todos os estudantes. “Quando você fala de racismo, é preciso ter um tato para reconhecê-lo, principalmente quando não é com você ou quando você é uma pessoa branca. (…) Então, quando há acesso ao conhecimento, é impossível não desenvolver um pensamento crítico”, destaca Sthael Santos, graduanda em História que fez parte dos primeiros momentos do Coletivo.

Entre rodas de conversas, batalhas de rima e debates, a iniciativa não usa de um espaço fixo dentro do colégio e as atividades são distribuídas conforme oportunidades ou relatos trazidos pela coordenação pedagógica. Além disso, por ser um movimento não institucionalizado, o Coletivo ultrapassa os muros do Colégio Estadual do Paraná, aceitando também integrantes que não pertencem ao espaço.

Quando você fala de racismo, é preciso ter um tato para reconhecê-lo, principalmente quando não é com você ou quando você é uma pessoa branca. (…) Então, quando há acesso ao conhecimento, é impossível não desenvolver um pensamento crítico.

Sthael Santos
Durante as reuniões, os integrantes discutem as pautas e levantam possíveis atividades que podem ser incluídas no calendário escolar. Foto: Davi Bini Mathias.

Há quatro anos, o legado desse movimento passa pela voz de muitos jovens que cresceram em lugares predominantemente brancos, tomando como exemplo o próprio ambiente escolar. Nesse sentido, o acolhimento e letramento racial se tornam extremamente necessários na construção de uma escola igualitária. Foi pensando nisso que Maria Clara Gomes, atualmente estudante do CEP, decidiu por fazer parte do Coletivo Preto, estando à frente das atividades desde o segundo semestre do ano passado.

“Em um espaço que é majoritariamente branco, qual será que é a memória do jovem negro? Eu percebo que o coletivo tem um papel totalmente relevante nesse cenário, onde permite que o jovem fomente a sua voz, entenda que também pode assumir um papel de protagonismo e servir de referência para outras pessoas. Então ele [o Coletivo] fomenta, na verdade, essa vontade no jovem negro de existir dentro do lugar, de se sentir de fato pertencente”, enfatiza a estudante.

Além do protagonismo estudantil, o Coletivo se tornou para os integrantes um espaço de fortalecimento pessoal. Foto: Davi Bini Mathias e Daniel Oldoni.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2023, 55,5% dos brasileiros se autodeclaram como negros – denominação que inclui pessoas pardas e pretas. No entanto, mesmo sendo a maioria, o cotidiano revela as diferentes desigualdades que ainda persistem na vida desse grupo populacional. Assim, movimentos como o Coletivo Preto mostram o engajamento da juventude para um futuro melhor, tomando como caminho uma educação antirracista e diversa.

Descubra a trajetória completa do Coletivo Preto na reportagem em áudio Coletivo Preto: a construção de um movimento estudantil negro no CEP, produzida por Amábili Gomes e Juliana Levandovski para a série “Olhares de Curitiba”. Ouça na íntegra abaixo.

Reportagem de Amábili Gomes e Juliana Levandovski.