Avanço da perícia técnica supera barreiras e medo de testemunhas em investigações criminais

Enquanto a retaliação fragiliza depoimentos em crimes violentos, especialistas reunidos no III FICP apontam como o cruzamento de dados e a perícia tornam-se essenciais para a elucidação de homicídios

3
Foto: UNASP.

 Por Emilly Silveira

A dependência exclusiva de depoimentos e o desafio de superar o medo de retaliações por parte de testemunhas foram o ponto de partida para os debates da Mesa 1 do III Fórum Internacional de Ciências Policiais (FICP 2026), realizada no âmbito do I Encontro Paranaense de Ciências Forenses. Intitulado “Ciências Forenses, Prova Técnica e Segurança Pública”, o painel colocou em pauta os obstáculos práticos enfrentados por peritos e delegados na investigação de crimes violentos.

A delegada titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil do Paraná (PCPR), Camila Cecconello, detalhou que a ausência de testemunhas dispostas a colaborar na fase judicial exige uma guinada investigativa. Para contornar esse gargalo, a delegada apontou a integração de análises periciais — como o confronto balístico e a extração de dados de dispositivos móveis — como o caminho decisivo para correlacionar homicídios e embasar pedidos de prisão.

A realidade dos territórios de conflito

Na sequência, o perito criminal da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) e pesquisador do Instituto Arrecife, André Villar, abordou os desafios específicos da atuação pericial em locais conflagrados, onde o risco de confrontos armados e a alteração proposital de evidências exigem adaptações drásticas nos protocolos tradicionais.

O perito enfatizou as diferenças entre a rotina em cenários controlados e a instabilidade de áreas de conflito urbano:

“Percebem que eu não consigo colocar tudo o que eu colocaria em prática se eu tivesse dois dias, um escaneamento 3D, cinco auxiliares, segurança plena e luz do dia? Percebem que não é o mesmo protocolo? Enfim, além dos cuidados ordinários que o perito criminal precisa ter, que não são poucos, nós precisamos estar atentos a cuidados extraordinários”, explicou André Villar.

Perspectivas globais e multidisciplinaridade

O painel contou com as contribuições do perito criminal da Polícia Científica do Paraná Alexandre Lara, do comentador Hemerson Bertassoni Alves, e dos pesquisadores Daniel J. Wescott e Deborah Cunningham, do Forensic Anthropology Center da Texas State University, que debateram a aplicação da antropologia forense na identificação de cadáveres.

Ao integrar diferentes visões de delegados, peritos e pesquisadores internacionais, o encontro evidenciou que a atuação forense moderna vai muito além dos exames laboratoriais de rotina. Os debates demonstraram que, diante de cenários de alta complexidade e violência urbana, a consolidação de laudos periciais robustos e a inovação contínua são indispensáveis para garantir a segurança jurídica, elevar os índices de resolução de inquéritos e assegurar o pleno funcionamento do sistema de justiça criminal.