Exposição realizada pelo Centro de Memória da instituição reúne documentos que retratam as disputas de narrativa a que os estudantes estavam sujeitos e sua interferência no cotidiano de um espaço educacional

Cartaz com fotos do comício pelas Diretas Já na Boca Maldita, encontrado pelos monitores do Centro de Memória Guido Straube no acervo do museu.
Foto: Emanuelle Viana

Em março deste ano, o Colégio Estadual do Paraná (CEP), o mais antigo do estado, completou 180 anos. A instituição, que já foi sediada em locais como a Praça Tiradentes, a Biblioteca Pública do Paraná (BPP) e a Praça Santos Dumont, possui uma trajetória marcante, ao formar gerações de estudantes. Dentre os nomes que já frequentaram as salas de aula do CEP, estão figuras políticas como o ex-presidente Jânio Quadros e o ex-governador Paulo Pimentel, e também culturais, como o fundador da Gibiteca de Curitiba Key Imaguire e o escritor Paulo Leminski.

Em uma existência que se entrelaça à do Paraná, a instituição esteve sujeita às consequências de momentos históricos marcantes do cenário geopolítico global e nacional. Dentre os conflitos, está a Guerra Fria (1947 – 1991), período em que o mundo se encontrava polarizado entre as ideologias socialista e capitalista, defendidas pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e Estados Unidos (EUA), respectivamente. Em um contexto de desdobramentos pós Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), os dois blocos disputavam hegemonia política, econômica e militar.

Marcado pela corrida espacial, armamentista e tecnológica, a disputa – que não contou com confronto direto entre as superpotências envolvidas – desencadeou outras movimentações pelo globo. Uma das medidas adotada pelos EUA, a Doutrina Truman, que, em uma tentativa de conter um suposto avanço comunista no Ocidente, passaram a oferecer suporte militar para outros países e intervir em conflitos, resultou no Golpe Civil Militar no Brasil, em março de 1964 e, consequentemente, na Ditadura, que se estenderia pelas próximas duas décadas.

Nesse cenário, durante a década de 1960, o Centro Estudantil do Colégio Estadual do Paraná (CECEP) – órgão que, posteriormente, seria nomeado de Grêmio Estudantil (GECEP) – passou a ser destinatário de jornais, revistas, panfletos e posters utilizados como meio de propaganda política pelos países que integravam os blocos capitalista e socialista. A professora de história e coordenadora do Centro de Memória e Museu Guido Straube do CEP, Leslie Gusmão, explica que a escolha do colégio como alvo dos materiais gráficos se dá diante de sua atuação na configuração política paranaense.

O quadro político do estado do Paraná esteve, historicamente, dentro dessa escola. Os nomes de ruas e praças, [por exemplo], têm relação com o CEP. [O que] têm vários motivos, e o primeiro deles é a relação com a elite.

Leslie Gusmão

Dentre os produtos recebidos, está um cartaz que apresenta o título “Venezuela contra la dictadura – veintiuno de noviembre: jornada de solidaridad internacional com los estudiantes y el pueblo de Venezuela” – traduzido para o português, “Venezuela contra a ditadura – vinte e um de novembro: jornada de solidariedade internacional com os estudantes e o povo da Venezuela”. Outro material, a edição n° 150 do Jornal Catolicismo, publicada em junho de 1963, informa sobre a comemoração do aniversário de 20 anos do livro Em Defesa da Ação Católica (1943), de Plínio Corrêa de Oliveira. Na notícia, a obra é descrita como um marco para a história religiosa contemporânea do Brasil e de grande valor intelectual.

Cartaz “Venezuela contra a Ditadura”, recebido pelo CECEP em 1963.

Em resposta ao recebimento dos jornais, panfletos, revistas e cartazes, os estudantes do CECEP escreviam cartas de agradecimento, endereçadas às entidades responsáveis pela produção, como a União Internacional dos Estudantes e a revista Boletim de Informação da Embaixada da URSS – traduzido do espanhol, –, por exemplo.

Esse material foi encadernado pelo grêmio à época, então houve uma intenção de guardar ou de fazer disso uma memória histórica por algum motivo.

Leslie Gusmão

Os arquivos compõem uma exposição organizada pelo Centro de Memória a partir de uma atividade de monitoria realizada com estudantes do 9° ano do Ensino Fundamental e turmas do Ensino Médio. Em um contato direto com fontes históricas que revisitam o passado da instituição, a iniciativa propõe uma abordagem que nada contra a maré da história tradicional e oportuniza o desenvolvimento de uma visão crítica em relação aos sujeitos representados e aos que, de alguma maneira, sofreram um apagamento.

A discussão completa do assunto você encontra na reportagem especial “Disputa narrativa nos anos de Guerra Fria e Ditadura Militar | 180 anos do CEP”, parte da série “Olhares sobre Curitiba”. Tomando como ponto de partida os desdobramentos ocasionados pelo período da Guerra Fria e da Ditadura Militar, a reportagem investiga como a disputa de narrativas capitalista e socialista estavam inseridas no cotidiano dos estudantes do CEP e que modificações ocasionaram em um espaço educacional. Confira a reportagem completa abaixo.

Reportagem de Emanuelle Viana e Cecília Comin