sáb 28 jan 2023
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Questões extracampo marcam oitavas de final da Copa

De ataques xenofóbicos até apoio à causa Palestina, mundial prova que futebol reflete temas sociais

A goleada portuguesa sobre a Suíça, na tarde desta terça-feira (6), encerrou as oitavas de final da Copa do Mundo 2022. O jogo com mais gols durante a primeira eliminatória foi no mesmo dia do único 0 a 0 do período, entre Espanha e Marrocos, que além da histórica classificação marroquina nos pênaltis, trouxe fatos marcantes a nível de geopolítica.

Também nos pênaltis, a Croácia passou pelo Japão e será adversária do Brasil nas quartas de final – enfrenta seleção em grande fase depois da goleada contra a Coréia do Sul. Holanda, França, Inglaterra e Argentina também passaram com facilidade por seus adversários.

Hakimi, punição e Palestina

Hakimi comemora classificação nos braços de sua mãe. | Reprodução/Twitter

A cavadinha de Achraf Hakimi, no pênalti que classificou a seleção de Marrocos pela primeira vez na história às quartas de final do maior torneio de futebol do mundo, teve gostinho de fogo “amigo”. Nascido em Madrid e filho de imigrantes marroquinos, o lateral direito começou a carreira nas categorias de base do Real Madrid e foi banido do futebol por meses em 2016.

Na época, o clube espanhol era investigado pelo aliciamento de jovens imigrantes, quase sempre adolescentes, o que não faria sentido no caso Hakimi, nascido na capital espanhola. Rabie Takassa, olheiro marroquino na Espanha, declarou que “a Fifa estava procurando nomes incomuns de imigrantes, mais do que olhando onde eles nasceram” ao Bleacher Report, em 2017.

Selecionável para a seleção espanhola, Hakimi disse não se sentir acolhido no ambiente, ao Marca: “não era o que eu tinha em casa”. “Pela cultura árabe, por ser marroquino, eu queria estar aqui [seleção de Marrocos]”.

Depois de eliminar o país onde nasceu, o lateral posou, junto de todo o elenco marroquino, com a bandeira da Palestina na comemoração do resultado. Em agosto deste ano Hakimi foi vaiado ao entrar em campo em Israel, na partida entre Maccabi Haifa-ISR e Paris Saint Germain-FRA, pela fase de grupos da UEFA Champions League.

Seleção do Marrocos posa para comemoração com a bandeira da Palestina | Reprodução/Twitter

A bandeira da Palestina também apareceu em peso na comemoração da classificação em solo marroquino. Música da torcida do clube Raja Casablanca – uma das maiores e mais engajadas no mundo inteiro – mostra o apoio incondicional à luta pela liberdade da Palestina e tem frases como: “Oh aquela Palestina, o coração já está triste por ti já fazem anos […] Minha amada Palestina, onde estão os árabes? […] O país mais bonito resiste, que Alá te proteja. […] Não vamos te abandonar, Gaza, embora esteja tão longe de nós”.

A demonstração do apoio a esta causa vem sendo comum nos jogos de países do Oriente Médio nesta Copa do Mundo. No jogo entre Tunísia e Austrália uma bandeira com a frase Free Palestine – libertem a Palestina, em tradução livre – foi exibida. Cataris e sauditas também demonstraram apoio, além de egípcios, argelinos, sírios e jordanianos que viajaram ao Catar para acompanhar o torneio.

O professor de Relações Internacionais e Política Externa da UFPR, Andrew Traumann, explica que há união dos cidadãos dos países árabes na luta pró-Palestina, ainda que o posicionamento dos governos não siga a mesma lógica: “Independentemente, se Egito e Jordânia têm relações com Israel já há muito tempo, ou mais recentemente Marrocos tenha normalizado relações, isso não significa de forma alguma que a população concorde com os atos desse governo, então a causa palestina é uma causa extremamente popular”.

Faixa com a frase “free Palestine” em meio à torcida tunisiana | Reuters

Mesmo que no maior palco midiático da atualidade, Traumann não acredita que as manifestações nos estádios possam surtir algum efeito no conflito e classifica a situação como um “beco sem saída”: “Mas acho bacana no sentido de mostrar que a causa não está morta, apesar de que a situação é muito difícil, um beco sem saída”

O professor, especialista em orientalismos, explica que a atitude dos jogadores e torcedores no Catar é, de certa forma, um levante popular – uma luta também contra seus próprios governos: “Eles querem deixar bem claro que eles não concordam com as posições dos seus governos, alinhados com o interesse israelense e norte-americano”

Registro do apoio tunisiano, ao lado dos torcedores da Austrália | Showkat Shafi/Al Jazeera

Outro fato marcante aconteceu horas antes da bola rolar na tarde de ontem. Para marcar ainda mais a relação colonizador versus colonizado, um javali morto foi deixado na porta de uma mesquita na Espanha com a mensagem “vamos caçar os mouros”.

Nome dado aos muçulmanos que habitaram a Península Ibérica do século VIII ao XV, “mouros”, nesse caso, foi utilizado como ameaça racial aos marroquinos que ainda vivem na Espanha. Cerca de 870 mil “mouros” comemoraram a vitória de seu país no futebol, e contra a violência étnica.

Apoio brasileiro e adversários em guerra

O apoio à causa palestina não parou nos países árabes nesta Copa do Mundo. Torcedor jordaniano-palestino, que ficou famoso após carregar nos ombros o neto de Tite em festa pós-jogo, foi convidado a assistir a um treino do escrete brasileiro.

Em vídeo divulgado nas redes sociais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o torcedor aparece com a bandeira da Palestina nas costas, em demonstração de apoio ao país, para os mais de 15 milhões de seguidores do Instagram da CBF.

Depois da grande vitória contra a Coréia do Sul, por 4 a 1, na última segunda-feira (5), o Brasil enfrenta a Croácia nas quartas de final. Time europeu eliminou o Japão nos pênaltis e tem relação forte com dois dos adversários do Brasil nesta Copa do Mundo – Sérvia e Suíça.

Neymar e Xerdan Shaqiri na disputa entre Brasil e Suíça

Quando a Croácia conseguiu sua independência, em 1991, a minoria sérvia da população croata, apoiada pelo governo sérvio, se opôs à secessão, e defendia a unificação das terras ao território da Sérvia.

A guerra teve cessar fogo em 1992 e a Croácia permaneceu, mesmo como nação soberana, sob protetorado na ONU até 1995. Luka Modric, astro da seleção croata e eleito melhor jogador do mundo em 2018, teve a aldeia que vivia quando criança invadida numa das ofensivas sérvias e em entrevista ao Daily Mail, relatou

Você tem que entender uma coisa sobre o povo croata. Depois de tudo o que aconteceu, depois da guerra, somos mais fortes, mais duros

Luka Modric, jogador da seleção croata

A guerra da Croácia aconteceu depois desmembramento da Iugoslávia. Além da Croácia, Sérvia, Montenegro, Macedônia, Bósnia-Herzegovina e Albânia e Eslovênia surgiram e Kosovo, que não foi reconhecida, gerou outros conflitos.

Xerdan Shaqiri e Granit Xhaka, destaques da seleção da Suíça, tem origem albanesa kosovar e são refugiados da guerra do Kosovo, entre 1998 e 1999, quando a nação tentou a independência, que deu origem a conflito bélico com a Sérvia.

Na Copa do Mundo de 2018, Suíça e Sérvia se enfrentaram e o jogo promoveu gols de Xhaka e Shaqiri, que na comemoração fizeram o gesto da águia de duas cabeças, presente na bandeira da Albânia – 90% da população kosovar é albanesa.

Comemoração de Granit Xhaka e Xerdan Shaiqiri no jogo contra a Sérvia, em 2018 | Getty

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