qui 28 out 2021
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Ombudsman – O balanço entre a “vaca fria” e a quente

Ao longo do meu tempo como ombudsman do Jornal Comunicação, tenho visto avanços nos textos e na formatação do conteúdo. Hoje, apesar de ainda existirem, já são menos matérias que não possuem serviço para o assunto que falam. Vejo que a produção aumenta a cada quinzena, culminando com duas semanas de produção de matérias num esquema de redação diária, no início do ano. Mas, uma questão que ainda precisa ser resolvida é: qual o balanço ideal entre matérias factuais meramente informativas (a vaca quente) e àquelas que pautamos como conteúdo independente do factual (a vaca fria).

Percebo o esforço (e também algum valor pedagógico) nas pequenas notas. Parte delas pode ser realmente relevante para o público do site. Falar sobre a abertura de inscrições de um programa acadêmico nem sempre é algo que requer um texto de duas laudas. Mas, se eu não trouxer nada diferente dos outros sites, que serviço estará prestando? O que estarei aprendendo? A “cozinhar” um release? Ora, isso não é algo que, ao meu ver, valha a pena no tocante ao objetivo desta disciplina.

No atual cenário de hardnews no mercado brasileiro, há veículos de nicho (e até em mídias não tradicionais, como Twitter) que têm se especializado em cobertura com velocidade. Como competir com eles sendo um veículo mais generalista? A resposta é: traga a notícia mais completa. Traga sempre uma informação a mais. Aproveite seu arquivo para oferecer ao leitor mais opções de leitura daquele mesmo assunto. Contextualize melhor a questão abordada, para que ela seja compreensível para um maior número de pessoas.

Sei que isso agora pode parecer distante, mas pense que, mesmo que você um dia trabalhe num veículo de nicho, trabalhar agora um olhar mais cuidadoso em termos de apuração, aprofundamento do tema e texto, vai te dar um diferencial para concorrer em qualquer mercado: seja ele generalista ou não. Velocidade é algo que se pega com a prática. Aproveite este momento para aguçar as outras habilidades necessárias para o bom jornalismo.

Com essa análise, é a minha opinião de que o “meramente informar” deve ser uma preocupação secundária neste momento. O importante é aproveitar a diversidade de ferramentas disponibilizada pelo jornalismo web para enriquecer o conteúdo disponibilizado para o leitor. Se você fizer disso um hábito, este poderá ser um diferencial na sua qualificação como jornalista.

Pitacos:

– Creio que não posso opinar sobre a qualidade dos programas de rádio colocados no site do Jornal Comunicação. Eles são de uma mídia diferente, apenas colocados para veiculação na web. Se a intenção é aproveitar conteúdo em áudio no site, sugiro que sejam utilizados podcasts curtos e temáticos e/ou entrevistas que não se tem tempo para transformar em “ping”.

– Matéria com a análise da possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff ficou rasa. Quantos pedidos de impedimento já foram feitos contra a atual presidente? Quais os argumentos de cada um deles? Seria bom, ao se ter uma fonte qualificada, questioná-la sobre casos específicos e não sobre suposições vindas das ruas. Caso o impedimento ocorra depois de 2017, quem assume o Brasil? Achei que a oportunidade foi mal aproveitada. E, como tem sido recorrente, não há link no texto para a matéria que o próprio Jornal Comunicação fez das manifestações de 15 de março (“É muito improvável”, afirma jurista quanto à possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff https://jornalcomunicacao.ufpr.br/e-muito-improvavel-afirma-jurista-quanto-a-possibilidade-de-impeachment-de-dilma-rousseff/)

– Bacana a matéria sobre o St. Patrick’s Day. Trouxe curiosidades sobre a data e a diferença na comemoração daqui com a de lá. Só faltou responder a pergunta: meu xixi fica mesmo verde depois de tomar a cerveja com corante? Brincadeiras à parte, foi uma boa sacada (Sucesso no mundo inteiro, as festas de Saint Patrick’s Day movimentam Curitiba  https://jornalcomunicacao.ufpr.br/sucesso-no-mundo-inteiro-as-festas-de-saint-patricks-day-movimentam-curitiba-3/)

– O texto ficou bom e gostei da iniciativa de dar espaço a novos autores. Mas, só fiquei com duas dúvidas: quanto custa o livro e onde posso encontrá-lo, além da Livraria da Vila? (Nova edição da coletânea literária Livro dos Novos é lançada https://jornalcomunicacao.ufpr.br/nova-edicao-da-coletanea-literaria-livro-dos-novos-e-lancada/)

– Mais uma vez, SERVIÇO. Dizer que é uma casa rosa do lado de uma igreja não é a forma mais conveniente de apontar para as pessoas onde determinado estabelecimento fica. Como posso participar dos coletivos? Onde posso acompanhar a programação de atividades que eles promovem? Faltou contar isso ao leitor. (Coletivos curitibanos promovem guerrilha artística https://jornalcomunicacao.ufpr.br/coletivos-curitibanos-promovem-guerrilha-artistica-2/)

– O tema é bom e atrai bastante interesse. Mas, faltou explorar melhor os problemas (e as virtudes) dos restaurantes universitários da UFPR. Há a comparação do preço do coxão mole, logo na abertura, mas custava R$ 15 o quilo quando? Qual era o valor real (o quanto custou de fato, não o cobrado dos estudantes) da refeição dos RUs há cinco anos e qual o valor hoje?  Desde quando o preço é mantido em R$ 1,30 e quando a UFPR pensa em reajustá-lo? Outro questionamento que faltou é se a reforma do RU Botânico foi programada para ser entregue em duas fases ou se algo deu errado. Faltou também falar qual a capacidade de fato do estabelecimento, quando funcionando a pleno vapor. Como ponto positivo, cito a explicação de como funciona o pregão eletrônico para a compra de mantimentos. (Altas taxas de inflação e reformas periódicas prejudicam o funcionamento dos restaurantes universitários da UFPR https://jornalcomunicacao.ufpr.br/altas-taxas-de-inflacao-e-reformas-periodicas-prejudicam-o-funcionamento-dos-restaurantes-universitarios-da-ufpr/)

– O texto ficou bom, mas deveria ter sido classificado como coluna ou artigo e não como reportagem. Não há fontes ouvidas. (Mais uma vez, a culpa é da vítima https://jornalcomunicacao.ufpr.br/mais-uma-vez-a-culpa-e-da-vitima/)

– Bom exemplo de como aproveitar a vaca quente (factual) para dar um texto com mais substância e informações. Ficou bom, mas pra ficar ainda mais interessante poderia trazer um panorama sobre a atual condição da espécie em termos de preservação e possível risco de extinção. (Laboratório da UFPR comemora três décadas de dedicação às araucárias https://jornalcomunicacao.ufpr.br/laboratorio-da-ufpr-comemora-tres-decadas-de-dedicacao-as-araucarias/)

– Assunto interessante, mas fiquei muito curioso para saber como o Futsac é jogado (regras e dinâmica). Se em texto ia ficar chato, podia ser em vídeo. Aliás, imagens mostrando o jogo seriam uma excelente pedida. Detalhe para o “delírio” do idealizador da modalidade, de que ela poderá estar nos Jogos Olímpicos em até dez anos. Temos que tomar cuidado com jornalismo declaratório.  Nem o futsal é esporte olímpico ainda. (Futsac é o primeiro esporte criado no Paraná e pode ser homologado ainda neste ano https://jornalcomunicacao.ufpr.br/futsac-e-o-primeiro-esporte-criado-no-parana-e-pode-ser-homologado-ainda-neste-ano/)

– Vaca quente entrando no ar seis dias após a volta às aulas na rede estadual? Demora grande e o texto factual acabou deixando a reportagem deslocada. (Paralisação dos professores chega ao fim, mas categoria continua em estado de alerta https://jornalcomunicacao.ufpr.br/paralisacao-dos-professores-chega-ao-fim-mas-categoria-continua-em-estado-de-alerta/)

– Excelente material na galeria de fotos sobre os protestos do dia 15 de março. Só faltou o que, adivinhem, o link para a matéria. (Manifestação em Curitiba movimenta a cidade https://jornalcomunicacao.ufpr.br/manifestacao-em-curitiba-movimenta-a-cidade/)

– Vocês conhecem o enredo: os coletivos feministas da UFPR têm site? A frente tem site? Como participo se sou de outros campi e não da Reitoria? É, faltou. (Eventos e coletivos incentivam o debate feminista dentro da UFPR https://jornalcomunicacao.ufpr.br/eventos-e-coletivos-incentivam-o-debate-feminista-dentro-da-ufpr/)

– Matéria sobre a manifestação do dia 15 começou com o pé esquerdo por um erro na manchete: dá a impressão que o evento era contra o impeachment da presidente (e não era, nem de longe). Faltou colocar link pra galeria de fotos, que ficou muito boa. Houve juízo de valor na afirmação de que a ingestão de bebidas alcoólicas foi um ponto negativo do ato (até em festa de igreja tem bebida, lembrem-se disso). A definição do que é federalismo me pareceu bem intrincada, embora não possa afirmar que está errada. No caso brasileiro, seria mais simples afirmar que o manifestante ouvido queria um aumento na autonomia dos estados que hoje são regidos por um governo central. (Evento pela luta contra a corrupção e impeachment da Presidente reúne milhares em Curitiba https://jornalcomunicacao.ufpr.br/evento-pela-luta-contra-a-corrupcao-e-impeachment-da-presidente-reune-milhares-em-curitiba/)

– Legal mostrar os dois lados de quem quer ter um animalzinho em casa: comprar ou adotar. A matéria cumpre bem o papel de informar, sem juízos de valor exacerbados, que são algo comum neste tema. (Com pedigree ou não: animais de estimação inspiram cuidados e geram despesas https://jornalcomunicacao.ufpr.br/com-pedigree-ou-nao/)

– Boa sacada sobre a “falha” na Lei do Feminicídio. No entanto, por ter apenas uma fonte “entrevistada”, acho que a matéria caberia melhor se vendida como uma entrevista/análise da ativista. (Lei do feminicídio é aprovada, mas população Trans não é amparada na mudança do Código Penal https://jornalcomunicacao.ufpr.br/lei-do-feminicidio-e-aprovada-mas-populacao-trans-nao-e-amparada-na-mudanca-do-codigo-penal/)

– Pontos positivos da matéria sobre a feira vegana/vegetariana: raramente vemos explicação dos diferentes tipos de dieta livre de carne. E raramente vemos este tema apresentado de forma razoavelmente imparcial. Ponto negativo: segunda matéria da quinzena com o chavão “superou as expectativas” no título. (Evento de culinária vegana superou expectativas em Curitiba https://jornalcomunicacao.ufpr.br/evento-de-culinaria-vegana-superou-expectativas-em-curitiba/)

– Na matéria sobre os problemas de estrutura do curso de Educação Física, faltou o “outro lado” na declaração da integrante do Centro Acadêmico (Caef). Ela inferiu que a troca de gestões no curso e no setor resultou na paralisação da obra. Tinha que ouvir ambos para ver essa história. (Reformas no Departamento de Educação Física já duram 5 anos https://jornalcomunicacao.ufpr.br/reformas-no-departamento-de-educacao-fisica-ja-duram-5-anos/)

– Matéria sobre os eventos de tatuagem peca ao usar a expressão “acessível” no título. Vamos combinar, 200 a 500 reais pode ser um custo mais baixo em relação ao preço usualmente praticado no mercado (aliás, qual é o preço “normal”?), mas não é acessível. No campo técnico, a foto colocada na resolução errada quebrou o layout da matéria. (Eventos de tatuagem unem conceituados profissionais a preços acessíveis https://jornalcomunicacao.ufpr.br/eventos-de-tatuagem-unem-conceituados-profissionais-a-precos-acessiveis-2/)

– Ficaram boas as fotos da manifestação pró-Dilma e o texto e o título do conteúdo foram muito felizes em destacar que o ato era pra isso mesmo: apoiar a presidente, sem rodeios e sem subterfúgios. Em uma opinião pessoal, embora não veja problemas com isso, eu não teria colocado a foto do professor orientador dessa disciplina na galeria. Fica parecendo uma “puxação” de saco. (Manifestação pró-Dilma reúne 2 mil pessoas em Curitiba https://jornalcomunicacao.ufpr.br/manifestacao-pro-dilma-reune-2-mil-pessoas-em-curitiba/)

– Excelente texto relatando o fim do acampamento da greve dos professores no Centro Cívico. Boas fotos também. Para efeitos de SEO, o título podia trazer menção às palavras acampamento e professores. (Ensinando a resistir https://jornalcomunicacao.ufpr.br/ensinando-a-resistir/)

Fabiano Klostermann é formado em Jornalismo pela UFPR. Começou sua carreira em 2006, cobrindo Esportes para a Gazeta do Povo, como freelancer. Em 2007, foi contratado pelo jornal O Estado do Paraná para atuar nas editorias de Cidades e Tecnologia. No mesmo ano, mudou-se para São Paulo, onde atuou como redator, repórter e editor-assistente na editoria de Economia do Portal Terra. Em 2010, foi para a Editora Abril para ser editor de capa do portal Abril.com. Voltou a Curitiba em 2012 e, desde então, é editor de Vida e Cidadania na Gazeta do Povo.

Ombudsman
O ombudsman é um jornalista designado para a função de ouvidor de um jornal. É ele quem faz a crítica interna do veículo, quem recebe, analisa e repassa as críticas e sugestões dos leitores e quem produz, periodicamente, uma coluna com as reflexões referentes a esse trabalho. O cargo existe no Brasil desde setembro de 1989, quando a Folha de S. Paulo instituiu seu primeiro ombudsman.

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